Comunicação Social

Ricardo Valadas, Presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da Polícia Judiciária.

Correio da Manhã, 25 de junho de 2017

Os caçadores de bruxas voltam ao ataque político após a morte chegar.

Por vezes fico com a sensação de que basta saber fazer um bom churrasco, ter uma mangueira em casa e um isqueiro no bolso, para poder ser um especialista em incêndios. Dizer que estes fogos, se não tivessem acendido, nunca teriam sido incêndios é algo digno de, pelo menos, 55 minutos de fama (Warhol errou nos minutos).

Estes caçadores de bruxas, após a morte chegar, voltam ao ataque político e exigem culpados para este incêndio – cuidem-se os mais baixos da hierarquia.

Em Portugal há gente culpada de ter ateado fogos, que nunca foi condenada, mas há gente muito culpada que nunca acendeu sequer uma lareira.

Décadas de culpa. Décadas de alegações entre maio a setembro e justificações empedernidas. Décadas justificando a falta de meios, enquanto tudo arde. Décadas a deixar arder.

Tenho esperança no futuro, mesmo depois de Pedrógão, Monchique, Vila de Rei, Chamusca, Nisa…

Hoje tenho esperança que talvez estes mortos sirvam, pelo menos, para que algo mude. Tantos anos a ouvir palavras vazias, fingidas. Tantos anos a ouvir os mesmos falsos lamentos. Depois dos hipócritas que encheram o tempo mediático, talvez seja o tempo. Talvez sirvam para que algo mude. Talvez. Pela sua memória.

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